domingo, 26 de dezembro de 2010

IDOSOS DE NARAYAMA – JAPÃO


Uma antiga tradição do norte do Japão, no Monte Narayama, chamada “Ubasuteyama” no final do século XIX. Segundo esta tradição, que foi relatada no filme “The Ballad of Narayama” do ano 1983, as completar 70 anos de idade, os moradores dos humildes vilarejos deveriam  subir  ao topo da montanha local, o Monte Narayama,  uma região sagrada e, como elefantes velhos, deveriam esperar pela hora da própria morte, sozinhos, para  morrer. Tratava-se de uma lei coletiva que garantia a sobrevivência do povo local, que era muito pobre e vivia no limite de sobrevivência. As pessoas de idade nem sempre ficavam felizes com este costume, porém fazia parte da vida na aldeia e era aprovado por todos – os mais velhos aceitavam o seu destino e subiam o monte em silencio, onde morriam de fome e em solidão. (Filme - A Balada de Narayama)
            Isolados entre as montanhas seus habitantes têm um cotidiano restrito basicamente à produção de alimentos, que mesmo com todo o esforço dos habitantes, é bem limitada.
            Nossa sociedade capitalista é baseada no consumo e acumulação, assim cada trabalhador produz muito mais do que pode consumir para que o excedente possa ser comercializado. Na pequena vila japonesa cada um produz sua própria unidade de consumo, não há trabalho alienado ou exploração do mesmo por terceiros gerando mais-valia, mas as técnicas de plantio e caça são rudimentares e o inverno rigoroso, sendo que quando a produção é baixa não há excedentes para a parcela improdutiva da população, ou seja, crianças muito pequenas para o trabalho e idosos já incapazes de produzir. A solução para este problema não é exclusiva da sociedade em questão, mas para nossos padrões é verdadeiramente inimaginável.

Não existe a possibilidade de aumento da população, portanto novas crianças só são aceitas quando há alguma morte – uma espécie de reposição, deixando densidade populacional estável. Para resolver o problema de um nascimento quando não houve nenhum óbito as meninas são vendidas, sendo levadas para longe da vila, e os meninos são mortos, enterrados ou jogados no riacho.
Não menos chocante é o destino dos idosos. Quando começam a perder os dentes (por volta dos setenta anos) devem deixar a vila, ainda que estejam lúcidos e possam contribuir com trabalho. Os dentes perdidos são uma espécie de sinal de que já não podem contribuir para o próprio sustento, logo se tornarão um peso para seus descendentes. Os idosos são levados por um membro da família até Narayama, uma montanha que abriga os restos mortais de diversas gerações de idosos, para perecer e assim deixar espaço sociedade para um novo membro. Podemos notar no filme que certas vezes este ritual (bastante mórbido para nossos padrões) é encarado com relutância pelos idosos, porém a grande tradição faz com que outros aguardem ansiosamente pela data, por vezes contribuindo para adiantar o afastamento, acreditando que esta é uma oportunidade de rever os antepassados. Todo o conhecimento e experiência de vida de um sexagenário, ainda mais valioso em uma sociedade sem tradição escrita, deve ser refutado em prol dos mais novos.

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